Quais são as suas lembranças de infância? Você acha que foi uma criança feliz?
Fiquei tocada pelo post da Nina, do Entre Mãe e Filha, em que ela fala sobre as tristezas que ela carrega da infância. Algumas coisas ali parecia minha realidade e isso me motivou a escrever este post.
Se fui uma criança triste? Sim e não.
A vida ao ar livre em uma pequena cidade do interior de Minas, o contato com bichos, plantas e tudo que é saudável e atrai as crianças tornam minhas lembranças de infância feliz.
Por outro lado, eu me lembro que sempre fui muito criticada em casa e na rua. Porque falava demais, porque gostava de brincar mais com os meninos, porque era teimosa, porque era respondona, porque era medrosa, porque era feia.
Em casa não tinha ninguém bonito não. Pelo menos eu não achava isso quando era criança.
Para mim eram todos chatos, feios e ruins. Nunca me senti acolhida quando criança. Não me lembro de um carinho sequer. Era só tapa, chute, empurrão, cascudo de quase todos. Tinha apenas uma irmã que sempre foi mais atenciosa com todos. Mas ela nao morava sempre conosco.
Em casa eu era a branquela azeda, a manteiga derretida, a "raspa do tacho" e isso significava que meu lugar era o último naquela família. Jamais teria preferência em qualquer coisa que fosse.
Eu buscava agradar, nunca consegui. Reclamavam até da fome que eu tinha, era chamada de "zoiúda, barriga de nós todos". Na escola era discriminada por ser a que não tinha lancheira, então as "tias" da merenda me escondia na cozinha durante o recreio e me dava um copo de café com leite e bolachas. Criança é um bicho ruim e preconceituoso em sua maioria. Era excluída por muitos por ser mais pobre, por usar roupa de meninos (maioria doação que minha mãe recebia), por ser orfã de pai, por ter cabelo ruim. As coisas só melhoravam quando percebiam que eu tinha as melhores notas da sala, então os sangue-sugas mirins se aproveitavam. Eu na minha carência afetiva, ansiosa para ser aceita, quase implorando para ter amigos, virava a professora de todos. Lembro até de ir na casa dos coleguinhas ajudá-los com as lições.
Quando adolescente, era peituda num corpinho magro e franzino. Ahhh e ainda tinha a sombrancelha de coruja. Mas o tempo vai passando, a gente vai se aceitando e como disse a Nina, a gente começa a se Amar. A dizer mais Não aos outros e mais Sim a nós mesmas.
Porém, estas marcas ficam. A gente tenta esquecer, deixa lá no bauzinho da cachola, mas são memórias tatuadas e nos segue até mesmo quando não estamos dando fé delas. A minha infância inteira tratei de ser uma boa aluna e nunca voltar para casa com uma nota vermelha para não decepcionar minha mãe. Por ela não ser alfabetizada, sabia que isso era uma coisa importante para ela. E eu queria ter a admiração dela. Admiração essa que só era demonstrada quando me citava em alguma conversa com outros pais de alunos. Um elogio direto, nunquinha.
Participava das danças e apresentações da escola, recitava poesia no Dia das Mães, fazia teatro. Era uma decepção atrás da outra, porque ela não ia me assistir. Não me lembro os motivos do não comparecimento, provavelmente não podia mesmo porque estava trabalhando pesado (na roça em serviço braçal) para sustentar eu +5. E lá ia eu chorar sozinha, escondida, porque ninguém ligava para mim e ainda me xingavam se me vissem chorando.
Hoje sou extremamente exigente comigo mesma e com os outros, porque essa foi a única maneira que encontrei das pessoas me notarem. Então eu sempre fui a boa aluna, a boa filha, a boa funcionária. Era considerada exemplo pelas mães das minhas amigas, o que as deixavam fulas de raiva comigo, mas funcionava quando queriam fazer algo que as mães não deixariam se estivessem sozinhas. Sabiam o quanto eu era certinha. Nunca transgredi regras por medo da rejeição. O máximo da minha má conduta foi encostar um cigarro na boca quando tinha 16 anos e matar aula (já na Universidade) para ir a uma festa de calouros.
Tenho algumas amigas que me acham o máximo, dizem que sou corajosa, determinada, exemplo de persistência, sou centrada, boa ouvinte, etc etc etc. Costumo brincar com elas perguntando se estão mesmo falando de mim ou de outra pessoa. Porque eu não me vejo assim. Teimosa eu sei que sou, também sou alegre e conversadeira.
Mas quando me olho no espelho vejo uma figurinha encolhida, com medo do mundo, com medo de mudanças, de um olhar atravessado. Como a Glorinha disse uma vez, eu rejeito antes de ser rejeitada, não sei lidar com isso. Fico martelando por que, o que eu fiz e no final sempre acho que a culpa deve ter sido minha, por causa do meu jeito.
Ainda acontece de receber um elogio e desconfiar se é de verdade mesmo. Penso muitas vezes que não mereço o que tenho. Que meu marido é bom demais para mim. Que eu não posso querer muito, porque já tenho o bastante. Talvez porque sempre fiquei com as migalhas: de amor, de atenção, de carinho. Meu marido é o homem mais atencioso e carinhoso do mundo e eu digo que Deus soube o que fez colocando-o no meu caminho. Ele me ensinou a ter confiança em mim (e nos outros), a não me fazer de vítima, faz eu me sentir linda, amada, competente. Aprendo muito com ele diariamente. Acho que ele está anos luz de evolução a minha frente, mas não o endeuso não, nada disso. Admiro, respeito, amo demais e agradeço sempre por tê-lo em minha vida. A convivência com a família dele, principalmente com a minha sogra, que é uma pessoa que amo e admiro muito também me ajudou a vencer estes traumas. Com eles aprendi a demonstrar meus sentimentos. Meu sorriso ficou mais largo e meu coração mais brando. Com isso melhorou até a relação com minha mãe. Antes de casar não me lembro de uma única vez ter dito a minha mãe que a amo, que a admiro, que o que sempre quis na vida foi deixá-la feliz!
Vocês devem achar que estou fazendo drama né? Mas mal contenho minhas lágrimas enquanto escrevo tudo isso e tantas recordações me vem a mente. Deve ser a tpm, deve ser o "Novo Normal" não sei...ou é só vontade de desabafar mesmo. Nunca comentei isso com ninguém.
Ahhh e apesar do momento "terapia blogal", não estou triste não, pelo contrário. Minha reforma está indo bem, sem muitos stresse. Pedreiro bom. Já comprei diversas coisas para minha futura caixinha de fósforo. Ganhei hoje uma cama box novinha em folha (a escolher). As coisas vão seguindo seu rumo normal. Estou feliz!
Um beijo e ótimo fim de semana a todos.
Lu Souza Brito
Onde o mar respira, o coração repousa.
Há 3 semanas

16 comentários:
po Lu, olha, eu li e me emocionei tanto, preciso parar o comment, meu bebe tá chorando, volto já...
...
oi, voltei :-)
Nossa, que desabafo importante esse que vc escreveu, até me sinto lisonjeada por ter te ajudado de alguma maneira a escrever isso, que sei o qt te ajudou. às vezes temos coisas entaladas, que doem mais se ficarem guardadas, ao falar a gente se liberta, pelo menos um pouquinho, né?
Lu, pude sentir toda a tua dor enquanto menina, que barra!!! Eu nao fui tao criticada, nao, quero dizer, recebi outros tipos de críticas, mas nao foram tao duras qt as que vc ouviu. Mas em mts coisas, temos mts semelhancas, tbm fui uma menina mt esforcada pra agradar, era a melhor lá de casa na escola, nunca repeti ano e fui a primeira a entrar na facul (td bem, a última a sair, mas aí tinha outras coisas envolvidas)e a única a fazer uma universidade federal, passei na primeira tentativa na federal, mas nunca ouvi um elogio! Nunca!! Minha mae era como a sua, no sentido de nao elogiar filho, e qd o fazia, era entre outras pessoas, nós nunca ouvimos algo dela, minhas irmas ouviram, eu nao,eu só era chorona, a feia, a baixinha, como vc viu. Dureza viu?!
Vc tbm falou um ponto importante,o qt as criancas podem ser más, é verdade... elas podem ser horríveis mesmo...
Mas fiquei tao feliz que vc hj se vê diferente, apesar de ter dificuldade em receber elogios, eu tbm!!!!! E que maravilha de marido,que maravilha! to tao feliz por vc,querida, tao feliz. Por favor, aceite um abraco da vida, se dê essa chance, essa oportunidade. Vc é linda, inteligente (nossa, escreve tao bem, eu tava aqui reparando, seu português é ótimo :-)
Lu, bola pra frente, e isso é um processo viu?? a gente nao aprende a se amar de repente, mas vamos aprendendo devagar, permita-se ser amada por quem mais merece seu amor, vc mesma.
E de novo, to mt feliz por vc! MUITO!
ps. obrigada por ter me avisad do post, gostei mt de te ler.
Lu, me via muito aí na sua história. Também quis sempre agradar. Minha vida foi diferente da sua, meus problems foram gerados por outros tantos motivos, entre eles o fato da família ser grande (10 filhos) e mãe ter que ser um "general" para controlar todos. Sempre quis aparecer fazendo-me de boazinha (sou boazinha, mas mesmo que quisesse esgoelar um, não o fazia! rsrrs).
Enfim, guardamos muitos dramas, ou assim nos parecem, porque só vamos compreendê-los mais adultas.
Você é linda (sabe que às vezes as outras crianças, ou irmãos, nos destratam por pura inveja, ciúme?), você é inteligente, corajosa e vai vencer essas lembranças todas.
Sua mãe deve ter sofrido muito para criá-los.
Cuida dela com carinho.
Beijos!
As pessoas fazem poesia e não percebem... me perdoa mas não resisti, leia isto:
"
Eu era Rejeitada...
Porque era teimosa
Porque era respondona
Porque era medrosa
Porque era feia...
Em casa não tinha ninguém bonito não.
Pelo menos eu não achava isso quando era criança.
Para mim eram todos chatos,
feios e ruins.
Nunca me senti acolhida quando criança.
Não me lembro de um carinho sequer. Era só tapa,
chute,
empurrão,
cascudo de quase todos.
Em casa eu era a branquela azeda
A manteiga derretida
A "raspa do tacho"
E isso significava que meu lugar era o último naquela família. Jamais teria preferência
em qualquer coisa que fosse.
Sempre fiquei com as migalhas: de amor.
( E hoje ) vocês devem achar que estou fazendo drama né?
( Mas não )
Estou feliz!"
Entendeu?...
Voltei pois não resisti!!!!
rssssssssss
Pessoas da tribo do Macaco Maia, são naturalmente crianças machucadas... o desafio? Ser transparente...
perdoe... perdoe a si mesma... deixe ir a dor... eles eram apenas crianças... enquanto você...: Uma alma antiga... que já sabia viver... mas estava ali... dando o seu melhor por eles... sabe Lu, as familias de Minas são especialmente preconceituosas e opressivas com suas crianças... sei disto bem... mas perdoei-os... afinal, eles eram apenas crianças!...
Entendeu?...
Meus respeitos pela sua dor... meus respeitos pela sua cura!
Seja Feliz MESMOOOO!!!!
Ah eu ia me esquecendo!!!....
Que maridão hein???!!!! Parabéns!
Da árvore que você colheu este tem mais um??? kkkkkk!
Beijos amiga!
Lu, queridíssima!
Desde o seu primeiro comentário inteligente em meu blog, percebi o quanto de especial você era e equilibrada emocionalmente também. Lembra que eu até coloquei o que você disse num outro post?
Então, para alguns, o sofrimento ajuda no crescimento, empurra pra frente, faz querer ser melhor e diferente, acho que este foi o teu caso.
Mas, imagino que a atitude por parte de seus pais tenham sido assim, por pura ignorância, no sentido de ignorar mesmo o quanto isto pode ser ruim para uma criança. O melhor, portanto, é perdoar, esquecer e viver o tudo de bom que você tem agora, principalmente ao lado deste príncipe de ébano que é teu maridão.
um beijo grande, carioca
Olá Nina,
Sou eu quem agradeço, através do seu post senti vontade de escrever e creia, me fez um bem danado.
Mas não pense que sou uma pessoa triste não, longe disso. São coisas que passei e que nem é o fim do mundo, mas me marcaram profundamente. Já superei, mudei, perdoei.
Um beijo!
Olá Lucia,
Minha mãe também foi um grande general, mas como não ser? Ela tinha apenas 31 anos e 6 filhos quando ficou viúva. Eu tinha pouco mais de um ano.
Sabe Lúcia, eu fiz este desabafo, mas jamais culpei a minha mãe por qualquer coisa. Sei o quanto a vida dela foi dura (e continua sendo). Sei que se não nos amasse mais que tudo, teríamos sido criados por desconhecidos, pois o que não faltou foi gente querendo nos adotar quando meu pai faleceu.
Minha mãe é minha heroína. Claro que não tinha este reconhecimento quando criança. Claro que gostaria de ter tido mais carinho quado criança, mas serviu de aprendizado e hoje devo o que sou a Ela, minha mãe e maior amor da minha Vida!
Um beijo e obrigada por comentar..
Olá Bill,
Só você mesmo para transformar minhas lamúrias em poesia, rsrsrs.
Este foi um exercício muito bom para mim sabia? Chorei muito muito o dia que escrevi este post, chorei lendo os comentários. Fiz uma limpeza de dentro pra fora e me permiti lavar toda e qualquer vestígio de mágoa que ainda existisse. Passei o fim de semana bem mais leve.
Obrigada pela sua atenção de sempre.
Beijos
Ah sobre o maridão, é fruto raro, ahahah, nem os que sairam da mesma árvore são iguais, kkkkkkkkkkkkkk.
Lembra do que me escreveu sobre olhar para o lado e perceber sobre minha alma gêmea? Já encontrei menino, kkkkkkkkkkk
Beijos
Bethinha minha querida,
Eu agradeço seus comentários sempre carinhosos comigo. Sim, eu já perdoei (se é que eu tinha algo a perdoar), pois você tem toda razão, minha mãe nunca se deu conta se isso machucava os seus filhos. Acho que mesmo hoje ela não tem idéia disso. Quer dizer, cada um se comporta como acha que deve. Eu sou muito sensível ou me tornei assim justamente pela carencia, não sei.
Minha mãe é uma guerreira, que batalhou a vida toda para que fossemos pessoas educadas, respeitosas, de carater, trabalhadoras, estudiosas. Dentro das poucas condições que ela teve, fez muito. Amo demais e não a culpo por nada. Só minha percepção que é diferente.
Graças a Deus hoje sei e entendo o jeito dela de ser. Com o passar dos anos ela também percebeu a importancia da demonstração de carinho,tals.
Ontem mesmo falei com ela por telefone. As coisas agora são bem diferentes. Amo minha mãe mais que tudo nessa vida!
Pois é, querida Lu, sinto que os tempos mudaram e até mesmo aquelas pessoas que tiveram comportamentos não muito sensíveis na época de criarem seus filhos, aprenderam com os próprios muita coisa e hoje fariam bem diferente. Mas, é como você mesma entendeu e aceitou, eles não faziam por mal, era apenas a ignorância da época e depois não havia tantas formas de educar as pessoas como tem hoje. Tua mãe teve uma importância enorme em sua vida e, pelo visto, para o bem, isso é o que importa.
um super beijo carioca
Qurida Lu, me identifiquei em vários parágrafos com seu texto. As vezes também me pego sozinha pescando esses traumas, essas tristezas em meu baú. Mas hoje sou mãe e me desespero ao pensar que meus filhos possam sentir isso tudo, também carregar no coração sofrimentos e tristezas que de alguma forma eu tenha causado. As vezes quando me pego magoada com minha mãe, que já nem está mais nessa vida, começo a pensar em como ela sofreu, como foi tratada por ter sido mão solteira, desprezada pelo namorado, abandonada pelos pais e irmãos, sozinha. Imagine vc como a sua mãe também deve ter sofrido e a dificuldade dela em abraçar, elogiar. talvez jamais tenha recebido um elogio. Porque a vida tem que ser assim, né amiga? E o pior é que muitas vezes me vi reproduzindo a fala e os gestos de minha mãe. Mas cada dia é um recomeço...Bjs
Nossa Lu, que infancia mais triste!!! Eh mais triste ainda quando a pessoa ou adulto nao se toca de quanto suas atitudes ou falta delas pode afetar a vida de alguem pra sempre!!!
Mas se sinta orgulhosa de ser a pessoa que eh apesar disso tudo e por ter conseguido achar nesse mundo um parceiro maravilhoso que te ajuda a ser feliz todo dia.
Apesar de tudo, nossa felicidade esta em nossas maos e temos a capacidade e o poder de virar o jogo em qualquer momento. Saiba que voce tem esse poder e faca de tudo pra colocar as magoas para tras, aprenda com o que passou e siga em frente, pois voce ainda vai ver muito arco iris pela frente!
bjos
Nossa Lu, que história, essa sua.
Também fiquei muito emocionada e lendo suas palavras, não só aqui nesse post, como também em comentários, dá pra perceber a pessoa do bem que você é.
Atenciosa, dócil.
Também tenho uns traumas que carrego da infância, e que até hoje alguns da família fazem questão em falar, mas já não me incomodam tanto como há anos atrás.
Qualquer dia desses eu faço esse desabafo também.
Continue brilhando.
Xeros
oi Lu, mt bom saber que te fez bem colocar isso pra fora, eu sei o qt é bom desabafar, sou a rainha nisso :-)
o que me preocupa é saber que nem todo mundo nasceu pra ter filhos, a gente vê pela falta de trato com que mts lidam com os filhos, me dói tanto ainda hj ver criancas pouco amadas, desrespeitadas, poxa, nao tem capacidade de amar entao nao engravida, putz.. isso me chateia Lu, mt!
de qq maneira, to feliz por vc, como já disse antes. Vc com tds as dificuldades pelas quais passou, se transformou num lindo ser humano e é isso o q importa agora.
e como disse a Ana Karla, continue brilhando!!
Olá!
Que lindo seu post! Como as pessoas podem ser tão diferentes e tão semelhantes ao mesmo tempo, né? Me enxerguei várias vezes nas suas palavras...
Que bom poder desabafar por aqui e, principalmente, encontrar palavras tão reconfortantes.
Um beijo!
Renata.
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